2011
“Diogo é meu pai...” As palavras saíram. “Por que está me dizendo isso agora?”“Nos encontramos rapidamente numa de suas vindas e... fui estúpida! Ele...” Suspirou. “Acabei dizendo a verdade e apesar de ter voltado atrás um milhão de vezes, nada adiantou. Agora ele está vindo novamente e quer te ver. Eu tenho que conversar com o Willian também, mas achei que deveria te contar primeiro. Diogo quer arruinar de vez a minha vida.”
Eu poderia ter permanecido sentado e consolado a minha mãe que estava seriamente perturbada. Dar o apoio que ela estava quase implorando. Ou também podia lhe fazer um milhão de perguntas, talvez gritar alguns desaforos e nunca mais lhe olhar na cara. Mas tudo aquilo só era mais uma prova do óbvio, do poder das pessoas em trazer outras para os seus problemas.
Não tinha lembranças do homem que julguei ter sido meu pai, porque ele partiu quando eu era ainda muito novo. Tinha trocado um pai desconhecido por outro. A verdade é que nunca fui de me importar com laços familiares. Não era o fim do mundo ter que conhecer o Diogo, só era completamente desnecessário. Imaginava se conseguiria chamá-lo de pai.
“Tudo bem. Vou dar uma saída agora, se não se importa.”
Eu já estava passando pela porta da copa quando ouvi minha mãe dizer “Você deve me odiar... Talvez um dia você possa me perdoar.”
“Não te odeio.” Não sei se ela chegou a ouvir.
Eu precisava sair dali o mais rápido possível. Aquele drama não me interessava. Eu já tinha algo ocupando bastante espaço em minha mente.
Sally não estava mais na sala de jantar, como tinha imaginado.
Entrei em meu quarto para pegar minha mochila e meu violão. Daria para voltar à Almerim antes do anoitecer.
Dei de cara com a Sally puxando sua mala. Ela me olhou assustada.
“Já está indo?” Perguntei.
“Desculpa, eu ia deixar um bilhete avisando. Achei que tinha mesmo sido uma péssima ideia vir. Sua mãe parece estar querendo passar um tempo com você.”
“Você não atrapalha.”
“Claro que sim, mas não vamos perder tempo com isso. Vou logo aqui pro lado.” Claro, minha vizinha. “Se as coisas ficarem muito chatas por aqui, sabe onde me achar.”
“Ok.”
Oasis (Don’t Look Back In Anger)
And so Sally can wait
She knows it's too late
As she's walking on by
My soul slides away
"But don't look back in anger!"
I heard you say
Então Sally pode esperar
Ela sabe que é tarde demais
Enquanto a gente estava caminhando por aí
A minha alma deslizava
Ela fez um som com a boca, não satisfeita com a minha resposta – eu sabia. Passou pela porta e a fechou com mais força do que usaria normalmente.
Olhei para o meu violão e desisti de levá-lo, talvez fosse melhor que ele continuasse ali, quando eu precisasse voltar seria bom ter um por perto. E, de qualquer forma, eu tinha o meu preferido, presente de Sally, em Almerim. Joguei nas costas minha mochila.
A porta se abriu e ouvi o baque da mala da Sally tombando no chão.
“Vai ficar no chão agora também!” Ela reclamou com a mala, depois viu a mochila que eu carregava. “Indo embora?”
“É.”
Sally inclinou a cabeça fazendo bico. “Ah não, Jack...”
“Deixou alguma coisa aqui?”
“Jack.” Revirou os olhos e bufou. “Não queria sair daquele jeito. Nada a ver, né! Acho que não estou no meu melhor hoje e me irritei com você por nada. Está chateado comigo?”
“Não.”
Estreitou os olhos. “Hum... Não está me convencendo.”
Sorri. “Está tudo bem, Sally. Sério. De verdade.”
“Ok... E vai embora por quê?”
“Sabe que não aguento ficar muito tempo aqui.”
“Nem imagino por quê!” Ela riu. “Fica lá em casa.”
“Tudo bem mesmo?”
Eu podia jurar que ela tinha ficado envergonhada.
Take me to the place where you go
Where nobody knows if it's night or day
Me leve para o lugar onde você for
Onde ninguém sabe se é noite ou dia
“Claro. A casa está cheia, mas lugar nunca falta. Seu quarto continua sendo somente seu.”
“Obrigado.”
“Então bora logo!” Apanhou o meu pulso pela mão, como tinha o costume de fazer, mas não foi a mesma coisa dessa vez. Vi quando ela me segurou no impulso e quase soltou em seguida. Seus olhos observando com desconforto um gesto que ela fazia tão naturalmente.
Fingiu precisar afastar a porta e soltou meu pulso. Algo tinha mesmo mudado e ela mal conseguia disfarçar.
“Pensei que tivesse dito não ter se chateado comigo, mas sabe que te conheço melhor que isso, né? Essa sua cara de poucos amigos... Poxa! Que feio guardar rancor, Jack.”
"But don't look back in anger!"
I heard you say
At least not today
"Mas não olhe para trás com rancor"
Ouvi você dizer
Ao menos não hoje
“Impressão sua, Sally.” Ela não poderia me irritar mesmo que quisesse, e pelo embaraço transparente em seu rosto, aposto que ela sabia disso.