quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

14- Capítulo Quatorze


2011
Há muito tempo eu não sentia tanta raiva de mim assim e Sally já estava longe demais para que eu a alcançasse. Olhei dentro dos olhos daquele homem parado a minha frente.
“Acho que chegamos numa péssima hora.” O rapaz que o acompanhava comentou.
“Jack...” O homem abriu um sorriso. “Eu te daria um abraço agora se não estivesse encharcado de suor. Podemos entrar? Sua mãe está? A viagem foi longa...”
Ainda de costas pra porta voltei meus passos para o interior da casa e sem tirar os meus olhos dos olhos dele fechei a porta.
“Ele é sempre simpático assim?” Ouvi o rapaz perguntar.
No caminho para o meu quarto vi o Mordomo.
“Tem alguém na porta.” Comuniquei.
Da janela do meu quarto fitei a janela do quarto de Sally a poucos metros de distância de mim. Imaginei-a sentada na cama chorando e me odiando.
Por quanto tempo estávamos enamorados? E eu já tinha posto tudo a perder. Talvez eu tivesse mesmo precipitado as coisas.
Bateram na porta do meu quarto.
“Jack? Posso entrar? Precisamos conversar...” Minha mãe falou do outro lado da porta.
Eu realmente não queria conversar com ela, ainda mais por saber bem qual seria o assunto.
“Filho...” Insistiu. “Também não gosto disso, mas dê uma chance a ele...”

Sitting, Waiting, Wishing (Jack Johnson)
But Lord knows that this world is cruel
and I ain't the Lord, no I'm just a fool
Mas O Senhor sabe que este mundo é cruel
E eu não sou o Senhor, não, sou apenas um tolo

Pendurei-me na janela e desci do segundo andar. Caí rolando pelo gramado, como quando era criança.
Pequei meu celular e chamei pela Sally.
“Me atende, me atende, por favor.” Pedi baixinho.
“Oi...” Ouvi sua voz cansada do outro lado da linha.
“Sally!” Pulei os muros que separavam nossas casas. “Eu quis tanto fazer tudo melhor pra você que acabei estragando tudo. Me perdoa. Me dá outra chance. Me deixa te ver, conversar pessoalmente.” Pedi ainda arfando por causa da escalada.
“Não. Fala agora. Ainda estou irritada, não vou conseguir te ver assim.”
“Justo.” Pensei por onde começar. “Estava esperando te pedir em namoro numa das apresentações da banda. Queria fazer algo especial e inesquecível.”
Sally me interrompeu. “Você me conhece desde sempre, Jack! Sabe muito bem que não ligo pra essas bobeiras.”
“Sei que não, mas você merece o melhor...”
“Jack, tem ideia do quanto esse seu comportamento me deixou confusa? Era só ter me dito então. Qualquer sinal de que... Ah! Mesmo assim! Você sabe o que eu penso sobre viver o momento e fica deixando as coisas pra depois justo comigo. Quer me enlouquecer, só pode!”
“Me dá outra chance?”

Oh, Maybe you've been through this before
But it's my first time so please ignore
The next few lines cause they're directed at you
Talvez você já tenha passado por isso
Mas é minha primeira vez, então, por favor ignore
Os próximos versos, porque são direcionados para você

“Tem certeza que está me contando tudo? Era só isso mesmo? Não tem nada te incomodando? Está mesmo tranquilo com nós dois juntos? Tem certeza de que quer isso? Juro que se você estiver achando que era melhor antes vou respeitar, vou te entender sem criar caso. A gente finge que nada aconteceu e fica tudo bem. Pensa direitinho, só não mente pra mim. Não tenta me proteger de bobeira.”
“Não. Não tenho nenhuma dúvida.”
“Hum...” Ela disse não muito convencida. “Ok então.” Seu tom de voz ficou mais suave.
“Posso ficar com você agora?”
“Não quero que você me veja do jeito que estou.” Disse chorosa.
“Amor... Por favor?” Pedi.

Must I always be waitin', waitin' on you
Must I always be playin', playin' your fool
Será que preciso sempre esperar por você?
Será que preciso sempre bancar o bobo por você?

“A porta não está trancada. Só subir. Estou no meu quarto.”
Antes que ela terminasse de falar eu já estava subindo as escadas. Encontrei-a de frente ao espelho enxugando as lágrimas do rosto.
“Não era pra você me ver assim. Me sinto tão boba...” Sally disse ao me ver.
Fui até ela e apertei-a em meus braços.
“Fiz um drama por nada, né? Eu sempre faço esse tipo de coisa, não consigo evitar e só vejo depois quando...”
Eu a interrompi colocando um dedo nos seus lábios. Segurei sua face envergonhada.
“Quer namorar comigo?”
Sally uniu as sobrancelhas. “Você não precisa...”
Encostei nossos lábios com a certeza de que poderia passar uma vida inteira sem encontrar uma sensação como aquela novamente. Nunca encontraria um novo primeiro beijo melhor. Nunca um tão esperado. O toque suave dos seus lábios. Seus cabelos entre os meus dedos. Seu sorriso ao desprendermos nossas bocas. Aquele momento ninguém poderia tirar de mim; nunca.

Fool, huhumm...
Bobo, huhumm...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

13- Capítulo Treze


2011

Os dias continuavam sobrepondo-se uns aos outros e eu não me importava se era segunda ou se era sexta. A noite e o dia eram a moldura que eu mal notava diante daquele sorriso perfeito... Tinha passado pouco mais de dois meses desde o início das aulas.
Eu já tinha me acostumado com a forma aborrecida que Sally sempre se despedia de mim. Mas as coisas estavam ficando mais estranhas na última semana. Ela estava sempre aborrecida.
Era final de semana e quis leva-la à minha casa em Almerim, para tocar para ela como na última vez que estivemos lá. Estávamos sentados um de frente para o outro na cama. Sally não tinha dito uma palavra em todo o caminho. Eu estava animado demais com a lembrança daquele dia para acreditar que tinha algo de errado.

Creep (Radiohead)
When you were here before
Couldn't look you in the eyes
Antes, quando você estava aqui
Eu nem conseguia te olhar nos olhos

“Tem alguma música em especial que queira ouvir?” Perguntei olhando para as cordas do meu violão.
Ela não me respondeu. Foi quando saí do meu transe de felicidade e prestei atenção na sua expressão indignada.
“Aconteceu alguma coisa, amor?” Perguntei temendo a resposta.
“Quero ir pra minha casa.” Disse rispidamente.
“Por quê? Não está gostando? Estou te entediando, né?”
Ela respirou fundo com seus olhos fechados e quando os abriu me fitou dolorosamente. Levantou da cama já pegando a sua bolsa. Pela primeira vez eu não fazia ideia do que se passava em sua mente e odiei aquela sensação.

I don't care if it hurts
I wanna have control
I wanna a perfect body
I wanna a perfect soul
Eu não ligo se isso machuca
Eu quero ter o controle
Eu quero um corpo perfeito
Eu quero uma alma perfeita

“Fala comigo, Sally... O que está acontecendo?”
Ela me olhou furiosa.
“Já entendi que está com raiva de mim... Mas precisa me dizer o motivo.”
“Tem certeza que quer ouvir?” Perguntou-me da porta.
“Claro...”
“Ok... Jack, eu não vou nunca te forçar a fazer nada que você não queira. Achei que estivéssemos na mesma sintonia, mas me enganei.”
“Como assim? O que quer dizer?”
Ela revirou os olhos e saiu pelo corredor.
Fui atrás. “Sally!”
Só consegui pará-la já quase na porta principal da casa. Tive medo que minha mãe ou o Sr. William vissem. Sinceramente, não queria que nem mesmo os empregados vissem.
Ela estava a ponto de chorar. “Só me deixa ir. Não quero discutir.”
“Você não pode sair assim. Como vou melhorar se não me disser o que fiz de errado?”

You're so fucking special
I wish I was special
But I'm a creep, I'm a weirdo
Você é tão especial
Eu queria ser especial
Mas eu sou um verme, sou um esquisitão

“Você me confunde...” Sally disse segurando os próprios ombros. “O que nós somos, Jack? Dois amigos de infância que resolveram trocar selinhos? Porque não somos namorados. E você nunca me deu um beijo de verdade. Eu sei lá o que se passa na sua cabeça e não vou forçar você a nada, mas não aguento ficar tentando adivinhar e já esperei demais você tomar alguma atitude. Você deve ter se arrependido, deve ter visto que foi uma péssima ideia ficar comigo... tudo bem! Resolvi facilitar as coisas. Tudo vai poder voltar a ser como era antes e vamos ficar todos bem.” Ela disse num tom de voz mais alto.
Então ela achava que eu tinha me arrependido?
Sally já estava com a mão na maçaneta.
“Espera, Sally! Não é nada disso!”
Ela virou o rosto esperando.
“Quer namorar comigo?” Perguntei.
Encarou-me com desprezo e saiu porta a fora.

She's running out the door
She's running out
She run, run, run, run
Run
Ela corre pela porta
Ela corre
Ela corre, corre, corre, corre
Corre...

Fui atrás, eu precisava explicar meus motivos... Mas não consegui passar mais que dois passos da porta. Dei de cara com as duas últimas pessoas que precisavam aparecer para piorar tudo.

domingo, 17 de junho de 2012

12- Capítulo Doze


2011
A vida continuava tomando o seu rumo ao meu redor e por mais que eu sempre tivesse mantido os meus olhos focados em Sally, dessa vez tudo parecia sem controle. Eu simplesmente não conseguia mais me concentrar em nada que fosse além dela.
Talita quis que a banda resolvesse seus problemas pessoais para poder ter mais foco na música. Os ensaios já tinham sido retomados, mas eu não tinha comparecido a um sequer. eu amava tocar na banda, entretanto ela teria que esperar.
“Ah, bora, Jack... Por favor...” Sally me chamava para matar aula bem no meio do pátio da escola.
Ela tinha começado a me fazer esse pedido com regularidade por mais que eu negasse.
“Ly...”
“Hoje eu vou matar aula de qualquer jeito. Não estou com o menor animo pra ver a cara dos professores hoje. Vem comigo?”
“Tudo bem.”
Seu rosto se iluminou. “Sério?! Ah, que ótimo! Então bora!”
“Vamos pra onde?”
Ela analisou. “Hum, não tinha pensado nisso. Precisa de um lugar certo?”
“Dá pra gente ir à Primavera.”
“Não! Está doido?! Longe demais... Muito ruim se a gente só der uma volta na praça mesmo?”
Eu já tinha imaginado todo um passeio romântico pelos pontos turísticos de Primavera.
“Tem certeza? Seria legal...”
Ela fez uma carinha e meneou a cabeça. “Não precisa disso tudo não, Jack. Só uma voltinha por aqui mesmo já vai ser tudo de bom.”
Andamos um pouco até encontrarmos um lugar mais calmo na praça e nos ajeitamos no chão.
“Você matando aula... Quem diria!” Implicou.
Sorri. “O que não faço por você.”
Sally se apertou nos meus braços e pouco tempo depois quebrou o silêncio. “Te amo.” Seria pedir demais que nenhuma outra palavra fosse pronunciada após aquelas?
Eu tinha lhe dito essas palavras por diversas vezes durantes as semanas que se passavam, ela sempre me abraçava forte ou me dava um sorriso enorme como resposta. Eu realmente não me preocupava com isso. Não queria força-la, mas também não queria deixar de dizer por não ouvir o mesmo dela.
À bem da verdade, ela tinha cansado de me dizer essas mesmas palavras infinitas vezes, mas era em outro tempo, quando ela deitava no meu colo e me chamava de amigo.
Passei a mão em seus cabelos.
“Você não acha estranho?” Perguntou-me.
“O quê?”
“Ah... Sei lá... É sempre fomos muito próximos, mas como amigos e agora... nem sei o que somos.”
“Não acho estranho.”
Ela tirou a cabeça dos meus ombros para me encarar com incredulidade. “Não acha estranho?” Perguntou-me novamente.
Sorri. “Eu vivi tantas vezes momentos assim com você na minha mente. Pensei que nunca passaria disso.” Toquei sua mão. “É mágico, não estranho.”
Ela abriu um sorriso enorme. “Como você consegue ser assim?” Diante do meu silêncio ela completou. “Como eu pude ser tão cega?”
Tirei as costas do chão para ficar à sua frente. “Linda.”
Ela desviou o olhar para o chão, envergonhada.

It’s Only Love (The Beatles)
When you sigh, my mind inside just flies
Butterflies
Quando você suspira minha mente voa...
Borboletas...

Puxei seu queixo pra cima novamente. Encostei nossas testas. Acariciei seus cabelos, suas orelhas e sua nuca com minhas mãos; e seu rosto com o meu. Nossos lábios se tocavam de leve.
“Eu te amo muito...” Lhe disse ao pé do ouvido.
Ela estremeceu.
Fomos interrompidos. “Esses jovens de hoje em dia... Não tem a menor vergonha.” Uma velha resmungou alto ao passar por nós.
Sally se afastou um pouco de mim. “É melhor a gente sair daqui.”
“Ficou aborrecida com o comentário?”
“Ah, Jack... Legal não é, né.”
Ri.
“E também não tem graça.” Mas riu comigo.
“Não fica assim, minha linda.”
“Velhinha dos infernos.” Olhou ao redor pra ter certeza de que a senhora não estava mais por perto.
“Só você...” Levantei e lancei minha mão na sua direção para ajudá-la.
Ela não quis minha ajuda e assim que ficou de pé se lançou nos meus braços. “Te amo!”

It's only love
And that is all
É apenas amor
E isso é tudo

“Melhor a gente voltar agora.”
“Hum...” Fechou a cara. “Bora.”

But it's so hard
Loving you
Mas é tão difícil...
Amar você

domingo, 27 de maio de 2012

11- Capítulo Onze


2011

Passamos o dia fugindo um do outro. Nenhuma ocupação era realmente importante ou tão urgente, mas agimos como se fossem. Eu sentia como se meu coração pudesse pular em minhas mãos se eu ficasse à sós com a Sally.
Já tinha chegado o final de semana e mal tínhamos trocado palavras.  Acredito que teríamos continuado nos evitando por mais tempo se já não tivéssemos combinado antes de passar aqueles dias juntos.
Nada de fim de semana em Primavera. Queríamos curtir lugares diferentes em Almerim; aqueles que não tínhamos tempo de conhecer na correria diária. Tudo bem que Almerim não era uma cidade conhecida por sua beleza indescritível nem por ter lugares incríveis para se visitar. Mas não se tratava disso. Nós não conhecíamos a cidade onde passávamos dias e mais dias. Nossos passeios se limitavam à uma pracinha próxima à escola, uma lanchonete e uma sorveteria.
“Oi.” Sally disse de um jeito engraçado, inclinando a cabeça na minha frente.
“Sally!”
“Pronto para o descobrimento de Almerim?”
“Bom dia.”
Ela sorriu envergonhada. “Bom dia, Jack.”

You and Me (Lifehouse)
What day is it and in what month
This clock never seemed so alive
Que dia é hoje e de que mês?
O relógio nunca pareceu tão vivo

Eu tinha feito uma pequena pesquisa sobre alguns lugares mais bacanas para o nosso passeio, mas Sally montou um bico me repreendendo. Eu tinha apontado para a direita, ela me apanhou pelo pulso e me arrastou pela esquerda. Começamos a andar sem rumo certo, porque Sally cismou que assim seria mais emocionante.
Aquelas ruas pareciam de uma parte mais pobre da cidade. Muros pixados, latas de lixo viradas, crianças correndo descalças...
“Sally, acho melhor a gente voltar e ir pelo outro lado.” Tive certeza de que era a melhor ideia assim que vi um grupo de jovens mal encarados que não tiravam os olhos de nós.
“Com medo, Jack?”
Ri nervoso. “Eu sei cuidar de mim, minha preocupação é com você.”
Ela riu debochada. “Ok. Se é assim, então relaxa e senta comigo ali.” Apontou para uma quadra de basquete onde alguns meninos competiam pela bola e outros assistiam.
“Tem certeza disso? Não acho uma boa ideia.”
Ela sorriu me desafiando. Não me lembro de ter conhecido esse lado da Sally antes e a ideia de ainda ter o que eu não soubesse sobre ela me surpreendeu bastante.

'Cause it's you and me and all of the people
With nothing to do
Nothing to lose
Porque somos você e eu e todas as pessoas
Com nada para fazer
Nada para perder

“Ok.” Respondi.
Nos sentamos num pedaço de concreto um pouco afastado da maioria.
“Você não se sente mais vivo fazendo esse tipo de coisa?” Ela não esperou resposta. Fechou os olhos, inspirou e expirou profundamente o ar. “Eu estava precisando de algo assim. Tem gente que usa drogas ou enche a cara pra sentir o sangue correr pelas veias, eu só preciso de um momento como esse... Sem saber o que vem a seguir.”

And it's you and me and all of the people
And I don't know why
I can't keep my eyes off of you
E somos você e eu e todas as pessoas
E eu não sei por quê
Não consigo tirar meus olhos de você

“Eu te amo.” As palavras simplesmente saíram da minha boca.
Ela abriu os olhos surpresos pra mim, depois abriu um sorriso e encostou sua cabeça no meu ombro alisando a minha mão.
“Vamos?” Perguntei.
“Tá bom...” Me respondeu sem vontade.
“Você ainda quer ficar?”
“Não. Bora logo.” Levantou-se.
“É só porque acho que é melhor a gente almoçar...”
Ela olhou a hora no celular. “Nossa! Já é isso tudo?” Me olhou com os olhos arregalados. “Caraca... Você já deve estar morrendo de fome, né. Bora voltar... Sabe de algum lugar legal pra gente comer?”
“Sei sim. Pelo menos nas fotos parecia um bom lugar...”
“Perfeito.”
As fotos que achei em minhas buscas pela internet não foram nada mentirosas... Ok, nas imagens o lugar parecia muito mais aconchegante, mas isso eu já tinha previsto.
Escolhi um lugar onde pudéssemos ficar mais a sós.
Sally começou com uma conversa de que não estava com fome; pedi para ela o mesmo que para mim. Ela revirou os olhos, mas não discutiu. Quando nossos pedidos chegaram ela olhou triste para o seu prato.
“Está mesmo sem apetite?” Coloquei a minha mão sobre a dela. “Come pelo menos um pouquinho...”
Forçou um sorriso. “Não é isso.” Meneou a cabeça. “Só estava pensando naquela gente. Nunca tinha visto de perto um lugar assim... mais simples. Como pode na mesma cidade onde existe um restaurante como esse ter gente que vive daquele jeito?”
Era esse tipo de coisa que eu mais amava nela. “Não devíamos ter seguido aquele caminho.”
“Está tudo bem, Jack. É só o que mostra nos noticiários; não é nenhuma surpresa. Só acho muito injusto. E me sinto tão pequena pra poder fazer alguma coisa a respeito...” Ela deu uma pausa. “Nossa! O assunto ficou tão tenso de repente, né?!”
Eu só conseguia pensar no quanto eu tinha sorte. Quem eu amava estava bem na minha frente com as bochechas coradas por ver nossas mãos sobrepostas.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

10- Capítulo Dez

2011
Ela esperou pacientemente aquele segundo eterno em que eu tentava encontrar uma conexão entre tudo o que sentia e as palavras. E se eu dissesse algo que a desagradasse? Ou se ela se aborrecesse comigo? Eu não saberia suportar.
“Não sei se é o que você quer ouvir...”
“Me diz...”
A sua mão sobre a minha tinha a intenção de me acalmar e encorajar, mas, ao invés disso, estava me deixando ainda mais conturbado. Eu não podia dizer tudo, ela correria léguas de mim.
“Mas...”
Dessa vez ela me interpelou, dando um aperto leve na minha mão. “Jack.” Ela pronunciou o meu nome com toda a firmeza do mundo, mas no momento em que seus olhos encontraram os meus, ela não conseguiu sustentar e voltou a olhar para o céu estrelado. “Não precisa ter medo de me magoar, ou sei lá. O que sente por mim é só amizade?”

Never Gonna Be Alone (Nickelback)
Now I'm wondering why, I've kept this bottled inside
So I'm starting to regret not telling all of it to you
So if I haven't yet I've gotta let you know
Agora eu estou imaginando porque deixei isso preso dentro de mim
Então, estou começando a me arrepender de não ter dito tudo para você
Então, se eu ainda não o fiz, tenho que deixar você saber

“Não.” Respondi de imediato. “A nossa amizade é inacreditável por milhões de razões, mas desde a primeira vez que te vi eu soube que você poderia fazer o que quisesse comigo... Você é diferente. Especial. E o que eu sinto por você vai muito além de amizade.”
Não conseguia ler as suas expressões do ângulo que estava.
“Você também é muito especial pra mim. O meu melhor amigo. E você... Você é único, Jack. Eu nunca conheci ninguém que sequer se aproximasse de tudo o que você é. Não existe em todo mundo alguém como você.”
Eu sentia as batidas do meu coração em todo canto do meu corpo. Acontecesse o que fosse, aquele momento ninguém jamais poderia tirar de mim. Eu queria beijá-la. Eu queria muito.
“Nossa...”
Ela riu com a forma abobalhada em que eu falei.
“Nossa...” Repeti.
Sally riu com mais vontade e virou seu rosto pra mim.
“Ainda não consigo acreditar.” Falei. “Você é incrível.”
Ficou envergonhada e abaixou o olhar. “Pensei que você fosse dizer que... sei lá. Qualquer coisa diferente disso. Nunca pensei que me visse dessa forma.”

Cause forever I believe
That there's nothing I could need but you
Pois sempre acreditei
Que não há nada que eu precise a não ser você

“Só se eu fosse cego.”
Ela me deu uma rápida olhada.
“Está acontecendo de verdade...” Falei baixinho.
Sally sorriu e passou a mão pela testa. “Nunca imaginei.”
“Eu tinha que ser louco pra não sentir nada por você, Sally. Mas também não quero estragar as coisas...”
“Estragar?”
“Vou ser sincero com você... tenho medo de não te fazer feliz.”
“Por que você não me faria feliz?” A maneira como ela me fez essa pergunta era quase como se ela acreditasse que essa possibilidade não existisse... isso tirou o resto de ar que eu ainda tinha.
“Não sei... Só tenho medo. Eu quero tanto que você seja feliz...”
Sally abriu um sorriso lindo. “Sabe, por causa do medo perdemos as melhores coisas. Eu também tenho muitos medos, mas decidi usá-los para me lembrar de que isso é algo especial o suficiente para arriscar. A vida passa que nem vejo. Fazemos planos e mais planos quando tudo o que temos que fazer é viver o agora. O agora é tudo o que temos.”
Sua última frase me incomodou mesmo tendo entendido o que quis dizer, porque eu queria muito mais que o agora, eu queria o pra sempre.
Ouvimos o barulho dos nossos amigos invadindo o jardim. Desprendemos nossas mãos como duas crianças.
“Vamos sair daqui hoje mais não?” Vinícius perguntou assim que nos viu.
Sally levantou. “Agora, insuportável.”
“Atrapalhei o casal é?!” Vinícius brincou rindo como sempre, ele só não sabia que tinha acertado.
“Já falei pra você superar seus ciúmes, baby.” Sally respondeu naturalmente.
Sempre esperávamos as meninas entrarem no seu dormitório para irmos ao nosso. Elas só acenavam e jogavam beijos, nada de abraços e longas despedidas. Mas nesse dia eu fiz questão de ter um abraço da Sally...
Foi rápido, por causa dos acompanhantes. E por mais que eu soubesse que o que eu estava prestes a dizer pudesse assustá-la muito, não me importei. Resolvi que aquele era um dos momentos em que deveria apenas agir sem muita reflexão. Mesmo naquele curtíssimo abraço, eu pude falar baixinho em seu ouvido antes de lhe deixar um beijo no rosto. “Eu te amo...”.

I'm gonna be there all of the way
I won't be missing one more day
I'm gonna be there all of the way
I won't be missing one more day
Eu estarei lá de qualquer forma
Não vou desperdiçar mais nenhum dia
Eu estarei lá de qualquer forma
Não vou desperdiçar mais nenhum dia

Virei as costas sem ver a sua reação. Se aquele fosse o último dia da minha vida, eu teria terminado com perfeição. Acho que isso era o que significava o que ela tinha dito em “viver o agora”. Mas, ainda assim, antes de fechar meus olhos naquela noite eu pedi em silêncio que pudesse ter mais um dia... Sempre mais um dia.

domingo, 11 de março de 2012

9- Capítulo Nove

2011
Senti meu corpo enrijecer com a tensão que sua pergunta me causou. Não que eu estivesse tentado a aceitar seu pedido, mas porque percebi que aquele assunto não teria fim.
“Talita...” Peguei seus ombros a afastando de mim.
Ela bufou tentando ser humorada. “Eu já sabia a sua resposta, Jack, mas não custava tentar. Então, me deixe te fazer outra pergunta.”
“Ok.”
“Você definitivamente não me ama, certo?”
“Desculpa...”
“Não se desculpe. Mas você está na banda mesmo com tudo o que aconteceu entre a gente porque você ama tocar, certo?”
“Sim.”
“Mas se de repente, houvesse outra banda que te convidasse... Aceitaria?”
Pensei. “Não...”
Talita avaliou a minha resposta seriamente e quando pareceu encontrar meu motivo fingiu carranca. “Tá. Isso por causa da Sally, né... a banda querida dela e blá, blá.”
Não respondi.
“Como imaginei. Quer dizer que se ela te incentivasse a aceitar o convite de outra banda, você não pensaria duas vezes. Ou caso ela pegasse encrenca séria com algum de nós... Qualquer desagrado dela com a gente já seria motivo, certo?”
“Não entendo aonde quer chegar, Talita.”
“Mas e a minha voz, Jack?”
“O que tem?”
“O que acha dela?”
“Acho linda.”
“Só?”
Suspirei. Ela queria detalhes, ok. “Quando você canta é como se eu escapasse desse mundo. Você fica incrível quando canta. Sua voz é única.”
Talita sorriu satisfeita. “E você seria capaz de tocar para outro cantor mesmo assim...” Continuou. “Da mesma forma que ama a minha prima e se envolveu por tanto tempo comigo.”
Culpado.
“Tudo bem, Jack. Descobri uma forma de seguir em frente numa boa. Aceito sem complicações que seja com a minha prima que você queira estar. Seja sempre tão firme e fiel como agora. Mas se é a minha voz que você ama, não vou aceitar que traia isso. Ame apenas a minha voz. Toque só pra mim.”
Foi impressionante ouvir a forma simples que ela usou para falar de algo que parecia tão mais complexo em minha mente. A verdade era que eu realmente só gostaria de tocar para a sua voz. “Tudo bem pra mim.”
Ela sorriu largo. “Podemos voltar pra sala agora. Já estou com a minha pendencia resolvida. Mas parece que você ainda tem uma lista pra resolver. Por que não começa com a parte que mais te interessa e está logo aqui do lado?”
“Você está mesmo bem agora?”
Talita me deu mais outro sorriso. “Estou sim, Jack. Engraçado até. Entrei nessa sala pensando que só haveria uma forma de terminar tudo bem e que nunca aconteceria, mas estou tão bem como nunca. Saber que a minha voz é única pra você me traz uma felicidade que nunca experimentei antes.”
Talita não era do tipo que media suas palavras ou ações, ela falava o que queria quando queria e pouco se importava para as consequências disso. Era quase como se curtisse a surpresa que esse seu modo de ser causava nas pessoas ao redor. E dessa vez nem mesmo o seu nariz arrebitado a impediu de dizer tudo o que queria me dizer.
Voltamos à sala e só os meninos estavam nela. Onde a Sally estava?
Talita fez a pergunta em voz alta por mim. “Cadê a Lilly?”
“Ah, ela disse que queria curtir um pouco a noite lá no jardim.” Ricardo respondeu.
“Forever alone.” Vinícius comentou e trocou risadinhas bobas com o Caio.
“Boa noite.” Desejei a todos e fui procurar por Sally.
Sally estava mesmo no meio daquela cerca viva, sentada num dos bancos admirando o céu estrelado. Acho que sentiu a minha presença; provavelmente, o som dos meus passos chamou sua atenção. “Ah, Jack... Já é muito tarde?”
“Ainda não.”
“Hum... Senta aqui.”
Fiz como pediu. “Pensando em alguma coisa?” Perguntei.
“Em você.”
“Em mim?”
“Jack, posso te fazer uma pergunta?”
“Pode...”
“O que você sente por mim?”

You know I love you so,
You know I love you so
Você sabe que eu te amo tanto,
Você sabe que eu te amo tanto.

“Ahm? Como assim?”
“Você entendeu. Me diz, por favor, eu preciso saber.”
Minhas mãos travaram no banco. Meu coração batia com tanta força que eu jurava que Sally podia ouvir as batidas. “Você é especial pra mim...”
Ela continuou calada, esperando que eu continuasse.
“Muito especial.”
Ela olhava serenamente para o céu em silêncio.
Eu estava a ponto de virar fumaça pelos ares.
“Mas... Por que está me perguntando isso?”
Sem tirar os olhos do céu, Sally colocou uma de suas mãos sobre a minha que apertava com força demais o banco de madeira. “Pode me falar, Jack. É só me falar...”

Look how they shine for you,
Look how they shine for you,
Look how they shine...
Olhe como elas brilham por você,
Olhe como elas brilham por você,
Olhe como elas brilham...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

8- Capítulo Oito

2011
Nossa banda tinha o costume de ficar até às 21:00h ensaiando, dava umas três horas de ensaios diários. Falando assim, pode até soar muito ou exaustivo, mas não. O tempo passava às pressas e por mais que ficássemos cansados, queríamos sempre mais.
Por volta das 20:00h Sally aparecia para assistir ao nossos ensaios, era quando terminava sua partida de futebol. Engraçado como ela realmente gostava de jogar. Inicialmente cheguei a acreditar que fosse por causa de alguma nova paixão, mas me enganei. Ela me contava sobre o jogo com bastante animação. Mesmo que eu não desacreditasse de todo ter alguém chamando a sua atenção por lá.
Tinha sido um final de semana inacreditável, mas eu deveria ter imaginado que os dias seguintes não ficariam por menos.
Ainda não tinha dado oito horas da noite quando Sally surgiu em nossa sala.
Talita dizia que faltava alguma coisa em nossa banda.
“Nós somos bons, mas não o suficiente. E isso não tem nada a ver com pouco ensaio nem com pouco talento. Nós temos potencial para marcamos a história do rock, mas falta alguma coisa. Andei pensando sobre isso e percebi que nos falta harmonia. Estamos em ritmos diferentes. Com projeção diferente. Presos em conceitos já existentes. Falta liberdade. Falta ousadia. Falta harmonia. Porque de nada adianta sermos incríveis, se não formos um. Precisamos disso. Precisamos estar na mesma sintonia. Por essa razão nada de ensaios até semana que vem.” Talita levantou o dedo. “Sem reclamações. Sei lá, façam o que quiserem nesse tempo, menos música. Resolvam suas questões. Liberem suas mentes. Deem um jeito de encontrar essa harmonia pra nossa banda.”
“Só a gente?” Vinícius indagou.
Talita deu uma encarada. “Eu faço parte ‘da gente’ se ainda não percebeu.” Revirou os olhos. “Bem, vamos encerrar por hoje, galera. Por favor, levem à sério o que eu falei.”
Sally fazia uma cara engraçada para mim e eu estava indo até ela quando Talita apareceu na minha frente.
“Preciso conversar com você.”
“Agora?”
Talita olhou para trás de si e viu sua prima. “Oi, Lilly! Posso roubar o Jack rapidinho?”
Sally ficou nitidamente sem graça. “Sem problemas. Eu só vim ver o ensaio mesmo, mas acabei nem dando sorte. Vou ficar aqui com os meninos... Espero vocês pra gente ir junto pro dormitório?”
“Ah, não por mim, ainda vou ficar um tempo aqui na sala quando todos saírem.” Talita.
Sally foi até os meninos como disse que faria. Odiei a Talita por isso.
“Talita, já está tarde. Melhor a gente conversar amanhã.” Tentei sair, mas ela não me deixou.
“Jack...” Ela pediu.
Olhei para ela. A sua expressão era uma agonia. “Por favor...”

You (The Pretty Reckless)
You don't want me, no
You don't need me
Like I want you, oh
Like I need you
Você não me quer, não
Você não precisa de mim
Como eu quero você, oh
Como eu preciso de você

Fechei meus olhos. Era difícil dizer não, quando me sentia culpado pelo estado em que ela se encontrava.
“Sinto sua falta, Jack. Não queria, juro, mas parece impossível fazer isso parar.” Ela me dizia baixo. “Eu sei que você é apaixonado pela Sally...”
Interrompi a Talita apertando seu pulso. “Aqui não.”
“Sei de uma sala vazia.”
Suspirei. “Vamos.”
Não quis ver a expressão da Sally a me ver saindo de forma tão suspeita com a Talita. Aquilo estava me tirando a paciência.
Assim que chegamos à sala fiz questão de me manter mais afastado da Talita. “O que você quer, Talita?”

And I want you in my life
And I need you in my life
E eu quero você na minha vida
E eu preciso de você na minha vida

“Não me pergunta isso, Jack.” Ela disse fechando os olhos. “Eu tinha me prometido nunca mais tocar nesse assunto. Enterrá-lo de verdade. Mas é uma tortura tão grande...” Lágrimas começaram a descer por seu rosto.

You can't see me, no
Like I see you
I can't have you, no
Like you have me
Você não pode me ver, não
Como eu vejo você
Eu não posso ter você, não
Como você me tem

“Não sei o que está acontecendo comigo, Jack. Não me reconheço. Se não fosse pela banda... Porque te ver e não te tocar, estar do seu lado e te sentir tão distante... Perdi meu orgulho.”
Aproximei-me dela. Acariciei seu rosto, limpando suas lágrimas. “Me perdoa, Talita. Não sei o que posso fazer. Eu amo a...”
Ela franziu a testa fazendo um som com a boca para que eu não dissesse. “Eu sei.”
Dei um beijo em sua testa e a puxei para os meus braços.
Talita disse com a cabeça repousada em meu ombro. “Uma última vez, Jack... Me deixe te amar só mais uma vez.”