domingo, 29 de novembro de 2015

20- Capítulo Vinte

2011

O meu medo era bem diferente do medo de Sally. E ela sabia que eu nunca a abandonaria enquanto ela me quisesse em sua vida. Não queria pensar no meu medo.
Ficamos abraçados na cama por um momento até ela lembrar assustada que precisava se despedir de seus amigos e que o tempo estava acabando.
Enquanto ela se arrumava esperando o pessoal, era inevitável pensar em como as coisas seriam. Não no que queríamos naquele momento, porém algo mais próximo da realidade.
Eu desejava do fundo do meu coração que essa mudança pudesse fazê-la feliz como ela nunca foi. Porque imaginá-la chorando escondida se sentindo solitária me fazia querer impedir que ela fosse.

Wherever Will You Go (The Calling)
So lately been wondering
Who will be there to take my place
When I'm gone, you'll need love
To light the shadows on your face
Ultimamente tenho pensado
Quem estará lá para ocupar meu lugar
Quando eu for, você vai precisar de amor
Para iluminar as sombras em seu rosto

Quando nossos amigos chegaram fizeram a bagunça de sempre. Até conseguiram com que Sally parasse de chorar e ficasse animada.
"Como vou conseguir ficar sem as maluquices de vocês?"
"Não se anime muito que não vai se livrar da gente tão facilmente." Talita disse.
Um dos seguranças apareceu indicando que já estava na hora.
Ela fez uma cara de quem pergunta "Já?".
"Larga de drama, Sally e se manda logo que em breve estaremos reunidos novamente." Mariana resmungou.
"Também vou sentir saudades, feiosa!" Sally devolveu a implicância.
Depois de mais outros milhões de abraços e despedidas o segurança estava claramente impaciente.
Talita virou o rosto da Sally e lhe deu um selinho nada delicado. Sally arregalou os olhos.
"Pra você ter um motivo pra sair correndo logo daqui. De onde veio esse tem mais..." Talita ameaçou rindo.
Ficamos todos em frente da casa vendo enquanto ela caminhava até o carro e quando ela estava quase entrando no veículo voltou correndo olhando fixamente para mim.
O pessoal começou a rir.
"Você tem que ir logo, amor..." Falei enquanto ela vinha.
Abraçou-me forte e com a mesma intensidade me deu um beijo. Depois voltou correndo para o carro. Nossos amigos fazendo piadas com a cena.
Eu sorria, mas não estava feliz.

Run away with my heart
Run away with my hope
Run away with my love
Fuja com meu coração
Fuja com minha esperança
Fuja com meu amor

"E ai, quem topa ir para uma festa logo mais?" Vinícius.
"Vou pro meu quarto" Falei.
"Até parece que vamos deixar!" Talita fez cara de poucos amigos. "Nem pense em ficar nessa de deprê. Vai sair com a gente e pensar nos próximos shows que temos agendado."
"Talvez até dê pra gente tocar nessa festa." Vinícius comentou.
"Melhor ainda!" Talita.
É claro que eu não queria, mas ela não me deixaria em paz enquanto eu não aceitasse e eu não estava com humor para muita conversa.
"Tudo bem, então." Respondi.
Comemoraram.
A festa teria sido uma completa perda de tempo se não tivéssemos tocado.
Talita me viu quando eu tentei ir embora sem ser visto depois de nos apresentarmos.
"Jack!" Talita me chamou e se aproximou. "Obrigada por ter vindo com a gente. Sei que agora vai querer ficar sozinho, mas tenta não fazer isso. Gostamos da sua companhia... Não quero que fique mal."
"Não se preocupe." Disse secamente.
Ela me olhou sem jeito e um tanto triste.
"Ei..." Tentei me desculpar. "Não precisa mesmo se preocupar. Depois você me conta melhor o que tem planejado pra banda. Não vou sumir dos ensaios."
Ela me deu aquele sorriso que damos para alguém especial. O mesmo sorriso que sempre dei para Sally e que diversas vezes ganhei da Talita.
Abracei aquela garota cheia de piercings na minha frente e lhe dei um beijo na testa.
"Se cuida." Falei.
"Você também."
Já no meu quarto me perguntava se eu não deveria ter ido com a Sally. E ser procurado pela polícia/minha mãe ou virar morador de rua; lembrei.

In your heart and your mind
I'll stay with you for all of time
If I could, then I would
Em seu coração, em sua mente,
Eu ficarei com você por todo o tempo
Se eu pudesse, então eu iria

sábado, 28 de novembro de 2015

19- Capítulo Dezenove

2011

Precisei ler mais duas vezes. Martagon era quase outro país pela distância.
"Não..." Pensei em voz alta.

Hurt (Johnny Cash)
I focus on the pain
The only thing that's real
Eu me concentro na dor
A única coisa que é real

"Eu não vou." Sally disse de imediato."Esse e-mail já tem uma semana e eu não tinha visto. Estava evitando o meu pai. Você sabe que vez ou outra faço isso. Mas eu não vou. Ele nem me perguntou se eu queria. Nem se importa com o que isso vai fazer na minha vida."
Desejei concordar. Dizer que poderíamos fugir e eu teria a Sally só para mim. Peguei suas mãos e olhei em seus olhos. As palavras quase saíram.

Full of broken thoughts
I cannot repair
Cheio de pensamentos quebrados
Que eu não posso consertar

"Acho que dá pra passar em casa e pegar um bolsa com algumas roupas. Tenho algum dinheiro." Ela começou a falar, mas parou chorando.
Coloquei sua cabeça no meu ombro. Nós dois sabíamos que ela iria viajar. Não teria fuga, nem tentativa disso.
"Vai ficar tudo bem." Falei.
A maior tristeza de Sally sempre foi ser distante de seu pai. Quando mais nova ela gostava de me contar como imaginava que seria a sua vida se a sua mãe ainda estivesse viva. Como seria chegar em casa e encontrar seus pais conversando qualquer bobagem. Ter horário pra chegar em casa. Levar bronca por alguma irresponsabilidade. E na nossa realidade, que pelo menos ela tivesse seu pai fazendo esse papel.
Estava ali a sua chance, mesmo que bem pequena, de ter isso. E que bem nos traria fugir? Ver tudo o que minha doce Sally poderia realizar em sua vida ser jogado fora? Nunca.
"Logo agora..." Ela disse. "Como vou ficar sem todo mundo? Principalmente sem você. Parece um pesadelo."
"Falta pouco para o final do ano. Poderemos nos ver e... Se você quiser nunca mais ficaremos longe."
Ela tirou a cabeça do meu ombro e olhou fundo nos meus olhos. Acariciou o meu rosto.
"Vou sentir tanta a sua falta..."
Respirei fundo tentando não pensar em mim.
"Presta atenção. Nada nesse mundo poderia me separar pra sempre de você. Vão ser só alguns meses e depois estaremos juntos novamente."
Ela fechou os olhos e depois os abriu já se levantando.
"Melhor eu ligar meu celular então. Meu pai deve estar enlouquecendo. Me ajuda a arrumar umas bolsas?"
"Claro." Peguei sua mão e voltamos para casa.
Sally falou com seu pai. Separou poucas roupas e alguns objetos.
"Ainda tenho três horas." Falou. "Quero chamar o pessoal para poder me despedir e explicar tudo. Mas antes quero passar mais um tempinho só com você."
Sorri. Fui beijado. Fizemos amor. Ainda deitada em meus braços chamou meu nome e então meneou a cabeça.
"O que foi?" Perguntei.
"É só que... Nós nunca fomos lá muito sortudos. E a vida é essa maluquice..." Pausou. "Nunca tinha passado pela minha cabeça qualquer possibilidade de futuro em que você não fizesse parte da minha vida."
Interrompi. "Ei. Mesmo de longe vou continuar cuidando de você."
Ela sorriu.
"E vai ser por pouco tempo, amor. Vai passar rapidinho, vai ver." Completei.
"Só quero que você saiba que eu nunca amei alguém como amo você e o quanto você é especial."
Esboucei falar, mas ela não permitiu.
"Escuta." Continuou. "Não estou dizendo que você é especial porque eu te amo e porque me ama. E eu te conheço, Jack. Sei bem o que pensa de si. Mas quero que agora, sempre que passar pela a sua cabeça que você é menos do que incrível você possa se lembrar desse momento. Do que estou te dizendo."
"Você me dizendo assim parece que não vamos mais nos ver."
Vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
"Se por alguma infelicidade..." Fechou os olhos e respirou fundo. "Jack, estou morrendo de medo."

I am still right here
What have I become, my sweetest friend?
Everyone I know goes away
In the end
Eu ainda estou bem aqui
O que me tornei, minha mais doce amiga?
Todos que eu conheço vão embora
No final

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

18- Capítulo Dezoito

2011

Foi numa manhã, naquele momento em que nos prendemos conscientes aos nossos sonhos. Lembrei-me das vezes em que Sally deitava a cabeça em meu colo feliz porque algum rapaz por quem era apaixonada ter lhe dado uma mínima atenção. Como eu os odiava por a tratarem dessa forma, por lhe fazer aceitar tão pouco e acreditar que era tudo o que merecia.
Todas as vezes em que eu quis lhe mostrar como deveria ser, que ela merecia tão mais e que ainda seria pouco.
Acordei feliz. Eu finalmente tinha a chance de fazer a Sally ainda mais feliz.
Eu estava ansioso e não conseguia me lembrar de quando já tinha me sentido daquela forma antes.

Cannonball (Damien Rice)
There's still a little bit of your taste in my mouth
Ainda há um pouco de seu gosto em minha boca

Sally tinha dormido com as amigas numa espécie de festa de pijama.
Ouvi a campainha tocando incansavelmente e decidi me apressar. Não reconheci o homem na porta.
"Pois não?" Perguntei.
"Trabalho para o senhor Carter. Tenho ordens para buscar a senhorita Carter."
Não tive reação por um instante.
"Senhor? A senhorita está?"
"Não... Na verdade não está." Disse sem saber ao certo se era o que devia.
"Sabe onde posso encontrá-la?"
"Aconteceu alguma coisa?"
"Não tenho informações, senhor. Minha ordem é apenas de acompanhar a senhorita Carter em sua viagem."
"Viagem?"
"Senhor...?" Quis saber meu nome.
"Jack Taylor."
"Senhor Taylor, preciso encontrar a senhorita Carter. Só sei que é importante e tenho um horário a cumprir. O senhor poderia me ajudar?"
"Desculpa. Claro que posso."
A verdade é que eu não queria. Para onde a levariam? E por quanto tempo? Mas poderia ser importante para a Sally, então peguei o meu celular.
"Vou tentar falar com ela." Avisei ao segurança.
Uma mensagem da Sally.

Amor, me encontra atrás da Sorveteria Alpínia o mais rápido possível.

Tentei manter a aparência de tranquilidade e fingi ligar.
"Ela não atende." Informei.
"Entendo. Sabe de algum lugar em que ela possa estar?"
"Talvez na escola. Não faço ideia, pra ser sincero."
"Tudo bem. Agradeço a ajuda, senhor Taylor."
Ele foi embora e esperei alguns poucos minutos antes de sair correndo para a soverteria encontrar com a Sally.
Ela estava sentada em um dos bancos, seu rosto vermelho e cheio de lágrimas.

It's still a little hard to say what's going on
Ainda é um pouco difícil de dizer o que está acontecendo

"Amor?" Sentei do lado e encostei nossos rostos numa carícia, como costumávamos fazer.
"Jack..." Ela me olhou desesperada.
"O que está acontecendo? Tinha um segurança do seu pai procurando por você lá na casa dos seus tios."
Ela procurou algo na bolsa e retirou uma folha de papel.
"Imprimi pra você poder ler. É um e-mail do meu pai."

Querida Filha,

Tenho uma ótima notícia. Você vai ganhar um irmãozinho ou irmãzinha, ainda não sabemos. Além de uma irmã de 9 anos e tenho certeza que vai amá-la. 
Sei que vai ser uma grande surpresa pra você, mas acredite que também estou surpreso. Claire é uma mulher fantástica. Nos conhecemos há algum tempo, não te contei nada a respeito por não ter julgado necessário. Mas terá tempo para conhecê-la melhor antes do nosso casamento.
Acho que finalmente poderei descansar de minhas constantes viagens. Martagon não é um lugar tão luxuoso quanto Primavera, mas certamente é encantador.Vai gostar de morar aqui.
Acredito que uma semana seja o suficiente para que você possa se despedir de Almerim. Vou pedir que alguns seguranças busquem você. Depois encaminho outro e-mail avisando o horário.

Ansiosamente, 
Seu pai.


There's still a little bit of your words I long to hear
You step a little closer to me
So close, I can't see what's going on
Ainda há um pouco de suas palavras que eu desejo ouvir
Você se aproxima um pouco de mim
Tão próximo, que eu não consigo ver o que está acontecendo

terça-feira, 21 de julho de 2015

17- Capítulo Dezessete

2011

Seu rosto era de pura aflição. Eu não poderia estar mais feliz. Passamos pela entrada do colégio de mãos dadas. Sally Carter era a minha namorada e estávamos prestes a contar a nossos amigos.
Como havia imaginado, Sally estava envergonhada demais para dizer qualquer coisa. Enquanto nossos amigos tagarelavam sobre uma porção de coisas, ela permanecia muda e sorrindo timidamente. Se a missão de contar ficaria comigo, faria da melhor forma possível.
Puxei suavemente o queixo da Sally, tentei encontrar seus olhos, mas ela desviou. Inclinei-me e a beijei.
Silêncio.
As expressões eram as melhores: espanto, confusão, curiosidade...
"Estamos namorando." Disse.
"Uau"
"Meu Deus"
"Finalmente!"
"Eu sempre achei que vocês dois formariam um lindo casal, mas se tratando da tapada da Sally, imaginei que não viveria para vê-los juntos. Felicidades!" Mariana.
"Como assim finalmente?" Sally fingiu indignação.
"Ah, Lily... O Jack vive com cara de bobo pra você, não sei como nunca reparou." Talita.
"Como ninguém nunca me disse nada?" Sally.
"Em assunto de marido e mulher, ninguém mete a colher." Vinícius respondeu rindo.
"Que amigos mais imprestáveis!" Sally brincou.

***

Já tinham terminado as aulas do dia e estávamos na casa da Sally em Almerim. Depois do nosso primeiro beijo em Primavera ficou difícil desgrudar nossas bocas. E elas estavam bem grudadas naquele momento, assim como nossas mãos no corpo um do outro.
"Tira essa blusa, Jack..." Sally sussurrou no meu ouvido.
Travei.
Ela se afastou um pouco para ver a minha expressão. "Não quer?"
"Não é isso..."
Ela pausou por um momento analisando. Cerrou seus lindos olhos "Jack, isso não é aquela história de querer fazer isso e aquilo especial não, né?"
Culpado.
"Aff! Jack, todo momento que estamos juntos já é perfeito. Não vê isso?"
Encostei nossas testas e acariciei seu rosto. "Sempre foi pra mim..."
Sally fechou seus olhos sorrindo. "Eu te amo tanto e..."
"E o quê?"
"E... não ri, mas estou muito apaixonada por você. Muito mesmo." Abriu seus olhos com um sorriso ainda maior. "Estou perdidamente apaixonada por você, Jack Taylor."

All of Me (Buckcherry)
All of me please take all of me 'cause you are all I see
Everything to me
Tudo de mim, por favor tenha tudo de mim, porque você é tudo que eu vejo
É tudo para mim

"Sally Carter... Sally Carter..." suspirei e coloquei uma de suas mãos sobre o meu peito. "Sempre bateu forte assim por você. Sempre fui perdidamente apaixonado por você. Desde que meus olhos encontraram os seus pela primeira vez... Quando o seu rosto ainda carregava curativos coloridos." Sorri com a lembrança.
"Você se lembra disso?" me beijou.
Tirei a minha blusa. Ela começou a desabotoar a dela em meio a beijos.
"Rá! Vocês não podem se esconder pra sempre!" Ricardo gritou e abriu a porta do quarto onde estávamos.
Sally deu um grito se escondendo atrás de mim. "Sai daqui, retardado!"
Ricardo foi fechando a porta devagar enquanto se desculpava. "Ops. Bad. Desculpa aí, galera. Pensamos que iriam sair conosco. Foi mal mesmo..."
"MeuDeusquevergonha!" Sally ainda atrás de mim. "Por que você não trancou a porta?"
"Eu? Mas o quarto é seu..." respondi.
Ela saiu à disparada para trancar.
"Pelo menos foi o Ricardo. Nem sei por que fiquei tão envergonhada." Sally falava sem parar. "Talvez porque eu estivesse sem blusa agarrada a você num momento que deveria ser só nosso. Mas talvez eu"
Interrompi segurando o seu rosto, "Sally, amor, calma. Não foi nada demais."
Sally expirou. "Estou exagerando, né? Como sempre..."
Sorri.
Peguei minha blusa do chão e quando voltei meus olhos para a Sally... Completamente nua. Em segundos, como ela...
"Você não vai a lugar algum." Disse se aproximando de mim.


Miss you all the time underneath a stormy sky
You take away the rain and leave me with a sunny day
Stay here by your side and never let you go new
Sinto sua falta o tempo todo, debaixo de um céu tempestuoso
Você tira a chuva e me deixa com um dia ensolarado
Ficarei do seu lado e nunca te deixarei ir

domingo, 21 de dezembro de 2014

16- Capítulo Dezesseis

2011

Suspirei pesaroso e voltei para o quarto. Sally ainda dormia. Desci as escadas sem saber ao certo se estava tomando a decisão certa.
Ainda pelo corredor ouvi suas vozes.
"Eu não estou tentando atrapalhar suas vidas. Só quero poder me aproximar dele. Acho que ele merece mais do que um pai morto." Diogo.
"Diogo, eu sempre o criei como um filho. Por favor, volte de onde veio. Nada disso é necessário." William.
"Não quis te ofender. Eu sei que nunca fui um exemplo pra vocês, mas... Não me impeça de tentar me aproximar dele, por favor."
Silêncio.
"Gabrielle, vou deixar você cuidar disso." Suspirou, " Tenho muito trabalho a fazer."
O senhor William atravessou a porta que já estava aberta e se assustou com a minha presença. Tocou o meu ombro ao passar por mim.
Fui até a porta e perguntei se poderia entrar.
"Claro." Diogo respondeu prontamente.
"Vou deixá-los a sós, se estiver tudo bem pra você, Jack." Minha mãe.
Confirmei com a cabeça. Assim que ela saiu e a porta foi fechada Diogo foi se desculpando comigo.
"Você sempre soube?" Perguntei.
"Sempre suspeitei."

Father And Son (Cat Stevens)
I was once like you are now
And I know that it's not easy
To be calm when you've found
Something going on
Eu já fui como você é agora,
e eu sei que não é fácil
ficar calmo quando você
percebe algo acontecendo

"Se já suspeitava, por que só agora quer participar da minha vida?"
Confusão e vergonha em seus olhos. "Desculpa, Jack..."
"Me diga o motivo."
"Não vou mentir pra você. Não pretendo ficar muito tempo... Nem quero fazer bagunça alguma na sua vida. Só achei que as coisas poderiam ser melhores se pudéssemos nos dar bem, como pai e filho."

But take your time, think a lot
Mas vá com calma, pense muito (por quê?)

"Você realmente acredita que trocando o meu pai morto por um ausente vai ser melhor? Só quero que as coisas continuem como sempre foram." Confessei.
"Jack..."
Interrompi. "Diogo, eu não preciso de um pai agora."
Ele fechou seus olhos por um segundo a mais. Sua expressão era puro remorso. "Não vou te forçar, Jack, eu entendo a sua decisão." Pausou. "Se em algum momento achar que precisa de mim, não vai ser difícil me encontrar. Acho que é a única coisa que posso te prometer."

... and I know
That I have to go away
I know I have to go
... e eu sei
que eu tenho que ir embora,
eu sei que tenho que ir

Não disse mais nada. Saí da sala e fui para um lugar mais isolado no jardim de casa. Com os olhos fechados, lembrei-me de todas as vezes em que fui ver o túmulo do meu pai. Nas vezes em que imaginei como as coisas teriam sido diferentes se ele estivesse vivo. Não entendi o motivo, já que nunca fui sentimental, mas eu realmente quis chorar. Só caiu uma lágrima e senti como se tivesse sido muito mais.
"Jack?" Ouvi uma voz masculina desconhecida.
Abri meus olhos imediatamente e reconheci o rapaz: era o mesmo que acompanhava o Diogo quando bati a porta em sua cara.
Não respondi e ele fez careta.
"Você não precisa ser um babaca só porque as coisas não são como você gostaria que fossem." Ele disse e foi virando as costas.


It's not time to make a change
Just sit down and take it slowly
You're still young that's your fault
There's so much you have to go through
Não é tempo de mudar,
apenas sente-se, vá devagar,
você continua jovem, esse é o seu problema,
há muita coisa ainda que você tem que enfrentar.

Sequei a lágrima do meu rosto. Apressei-me ao meu quarto. Sally acordou com a minha chegada.
"Já são que horas?" Perguntou já encarando o relógio na parede. "Eu dormi esse tempo todo?"
Sorri. Fui até onde ela estava e a beijei como se uma vida tivesse passado desde a última vez em que nos beijamos.

domingo, 31 de março de 2013

15- Capítulo Quinze


2011

Esperei até que a Sally caísse no sono. Saí do seu quarto e encarei através da janela do corredor; Nada melhor do que encarar um ponto no vazio pra não ter que encarar a realidade. Fragmentos de lembranças se empilhavam na minha mente.

***
2000

Era natal. Vermelho e verde preenchiam todos os lugares; roupas, objetos, luzes. Queria poder estar no meu quarto tocando algumas das músicas que tinha aprendido. Lembrei de Sally dizendo que amava o Natal, era sempre divertido na casa dela. Minha mãe me deixou ir pra casa da Sally, minha vizinha, mas só depois que desse meia noite ... Estava ansioso.
Meia noite. Todos sorriam e repetiam “Feliz natal”.
Minha mãe não me desejou feliz natal; seus olhos estavam cheios d’água quando me deu um beijo na testa. “Te amo”. Alguém a chamou.
Tentava chegar à porta no meio te tanta gente e seus sorrisos.
“Feliz natal, garotão!” Alguém bagunçou meu cabelo quando disse.

Recess (Muse)
I wake to see
You are never here
Acordo para ver
Que você nunca esteve aqui


Estiquei minha cabeça e dei de cara com o maior de todos os sorrisos.
“Fugindo?”
Sorri de volta.
“Pra tirar um cara de uma festa assim só pode ser uma garota.”, continuou, “Não precisa dizer nada... mas não é bom ir de mãos vazias. Elas sempre dizem que não precisava quando recebem um agrado, mas se você não leva nada...”, me fez rir com uma careta, “Toma. Dê isso a ela. Tenho certeza de que ela nunca vai esquecer.” Colocou uma rosa em minhas mãos e sacudiu a mão nos meus cabelos novamente.

***
2011
Another year
Face your hopes and fears

Num outro ano
Encare suas esperanças e seus medos 


***
2005

“Como cresceu, Jack!” me deu um abraço forte e rápido. “Soube que gosta de tocar violão... achei que também pudesse gostar disso.” E o Diogo empurrou o meu primeiro baixo no meu colo.

There's more
Hopes that forgive

Há muito mais
Esperanças do que perdão


***
2007

Estava lendo numa das salas de casa. Diogo se atirou no acento ao me lado e suspirou. “As mulheres são os seres mais fascinantes do mundo. Com a mesma habilidade que elas salvam a nossa vida, elas destroem. Sabe, eu mesmo gosto de dizer que nunca amei nenhuma ou que amo a todas... Mas existe uma que até hoje consegue me tirar o fôlego. E não são seus lindos par de olhos. Ela é a mais fascinante de todas... Eu sei tudo sobre ela e mesmo assim ela continua sendo um mistério pra mim. Ela NUNCA vai poder ser minha e há muito tempo já me convenci de que é melhor assim.”
Ele cambaleou um pouco no assento tentando olhar pra mim. Apertava e arregalava os olhos. Não consegui segurar o riso. Ele sempre me fazia rir. Eu realmente gostava quando ele resolvia aparecer.

Are but truce absurd
Há um descanso ridículo

O cheiro forte da bebida me fez torcer o nariz numa careta.
“Tá, tá...” Diogo balançou as mãos. “Sei que estou bêbado, mas eu sei muito bem o que estou falando. Pode rir se quiser, mas ouça bem o que vou te dizer agora. O tempo passa muito rápido e às vezes a gente acredita estar tão certo sobre o que queremos pra nossa vida... Conhecer uma pessoa, amá-la e ser amado de volta. Isso só aconteceu uma vez na minha vida e sei que nunca mais vai se repetir, de fato porque meu coração continua sendo apenas dela. O que quero te dizer é que o que é raro precisa ter o valor de raridade atribuído; Porque tem gente que passa uma vida inteira sem nem esbarrar em algo assim. Eu amo a minha vida de liberdade, amo de verdade e amo tanto que não sei viver de outra forma, não me encaixo em outro tipo de vida. Mas não tem um dia que passe sem que eu sinta a falta dela. Escolhas... é disso que a vida é feita. Cuidado com as que faz, jovem...” e apagou no meu ombro.
Fiquei imaginando quando o veria de novo. Em pensar que em quatro anos eu bateria a porta na sua cara.

And you kissed my life
E você tocou levemente a minha vida


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

14- Capítulo Quatorze


2011
Há muito tempo eu não sentia tanta raiva de mim assim e Sally já estava longe demais para que eu a alcançasse. Olhei dentro dos olhos daquele homem parado a minha frente.
“Acho que chegamos numa péssima hora.” O rapaz que o acompanhava comentou.
“Jack...” O homem abriu um sorriso. “Eu te daria um abraço agora se não estivesse encharcado de suor. Podemos entrar? Sua mãe está? A viagem foi longa...”
Ainda de costas pra porta voltei meus passos para o interior da casa e sem tirar os meus olhos dos olhos dele fechei a porta.
“Ele é sempre simpático assim?” Ouvi o rapaz perguntar.
No caminho para o meu quarto vi o Mordomo.
“Tem alguém na porta.” Comuniquei.
Da janela do meu quarto fitei a janela do quarto de Sally a poucos metros de distância de mim. Imaginei-a sentada na cama chorando e me odiando.
Por quanto tempo estávamos enamorados? E eu já tinha posto tudo a perder. Talvez eu tivesse mesmo precipitado as coisas.
Bateram na porta do meu quarto.
“Jack? Posso entrar? Precisamos conversar...” Minha mãe falou do outro lado da porta.
Eu realmente não queria conversar com ela, ainda mais por saber bem qual seria o assunto.
“Filho...” Insistiu. “Também não gosto disso, mas dê uma chance a ele...”

Sitting, Waiting, Wishing (Jack Johnson)
But Lord knows that this world is cruel
and I ain't the Lord, no I'm just a fool
Mas O Senhor sabe que este mundo é cruel
E eu não sou o Senhor, não, sou apenas um tolo

Pendurei-me na janela e desci do segundo andar. Caí rolando pelo gramado, como quando era criança.
Pequei meu celular e chamei pela Sally.
“Me atende, me atende, por favor.” Pedi baixinho.
“Oi...” Ouvi sua voz cansada do outro lado da linha.
“Sally!” Pulei os muros que separavam nossas casas. “Eu quis tanto fazer tudo melhor pra você que acabei estragando tudo. Me perdoa. Me dá outra chance. Me deixa te ver, conversar pessoalmente.” Pedi ainda arfando por causa da escalada.
“Não. Fala agora. Ainda estou irritada, não vou conseguir te ver assim.”
“Justo.” Pensei por onde começar. “Estava esperando te pedir em namoro numa das apresentações da banda. Queria fazer algo especial e inesquecível.”
Sally me interrompeu. “Você me conhece desde sempre, Jack! Sabe muito bem que não ligo pra essas bobeiras.”
“Sei que não, mas você merece o melhor...”
“Jack, tem ideia do quanto esse seu comportamento me deixou confusa? Era só ter me dito então. Qualquer sinal de que... Ah! Mesmo assim! Você sabe o que eu penso sobre viver o momento e fica deixando as coisas pra depois justo comigo. Quer me enlouquecer, só pode!”
“Me dá outra chance?”

Oh, Maybe you've been through this before
But it's my first time so please ignore
The next few lines cause they're directed at you
Talvez você já tenha passado por isso
Mas é minha primeira vez, então, por favor ignore
Os próximos versos, porque são direcionados para você

“Tem certeza que está me contando tudo? Era só isso mesmo? Não tem nada te incomodando? Está mesmo tranquilo com nós dois juntos? Tem certeza de que quer isso? Juro que se você estiver achando que era melhor antes vou respeitar, vou te entender sem criar caso. A gente finge que nada aconteceu e fica tudo bem. Pensa direitinho, só não mente pra mim. Não tenta me proteger de bobeira.”
“Não. Não tenho nenhuma dúvida.”
“Hum...” Ela disse não muito convencida. “Ok então.” Seu tom de voz ficou mais suave.
“Posso ficar com você agora?”
“Não quero que você me veja do jeito que estou.” Disse chorosa.
“Amor... Por favor?” Pedi.

Must I always be waitin', waitin' on you
Must I always be playin', playin' your fool
Será que preciso sempre esperar por você?
Será que preciso sempre bancar o bobo por você?

“A porta não está trancada. Só subir. Estou no meu quarto.”
Antes que ela terminasse de falar eu já estava subindo as escadas. Encontrei-a de frente ao espelho enxugando as lágrimas do rosto.
“Não era pra você me ver assim. Me sinto tão boba...” Sally disse ao me ver.
Fui até ela e apertei-a em meus braços.
“Fiz um drama por nada, né? Eu sempre faço esse tipo de coisa, não consigo evitar e só vejo depois quando...”
Eu a interrompi colocando um dedo nos seus lábios. Segurei sua face envergonhada.
“Quer namorar comigo?”
Sally uniu as sobrancelhas. “Você não precisa...”
Encostei nossos lábios com a certeza de que poderia passar uma vida inteira sem encontrar uma sensação como aquela novamente. Nunca encontraria um novo primeiro beijo melhor. Nunca um tão esperado. O toque suave dos seus lábios. Seus cabelos entre os meus dedos. Seu sorriso ao desprendermos nossas bocas. Aquele momento ninguém poderia tirar de mim; nunca.

Fool, huhumm...
Bobo, huhumm...